VI Congresso Internacional da Sociedade Hegel Brasileira


De 05 a 07/10/2011 no Rio de Janeiro,
Promovido pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


200 anos da "Ciência da Lógica (1812)"

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A Sociedade Hegel Brasileira - SHB - inaugura neste ano de 2011 as celebrações dos 200 anos da Ciência da Lógica de  Hegel. Aparecida em 1812, esta obra intenta realizar, de um lado, a verdadeira crítica das formas puras do pensar para além de sua aceitação acrítica pela metafísica pré-kantiana e de sua crítica meramente formal, segundo as formas abstratas do a priori em oposição ao a posteriori, levada a cabo pela filosofia transcendental. De outro lado, ela pretende explicitar o modo adequado pelo qual a essência suspende seu reportamento a um ser ou seu aparecer e, assim, em sua determinação não é mais exterior, mas sim o subjetivo autônomo livre ou o sujeito mesmo que se determina dentro de si. Que este projeto não tenha sido apresentado de modo suficiente em sua primeira elaboração, Hegel foi o primeiro a reconhecer; razão pela qual terminou sua vida debruçado sobre os originais que iriam constituir a segunda edição da obra que ora celebramos.

Não obstante, a primeira apresentação da Lógica, mas especificamente da Doutrina do Ser de 1812, tocou fundo a autoconsciência do espírito que, uma vez voltado para dentro de si, se impôs a si mesmo as questões mais complexas relativas ao despojamento de suas figurações contingentes. Uma tarefa para a qual os 25 anos de elaboração precedente, que transformara por completo o modo do pensar filosófico alemão, em nada poderia servir; pois ou permanecia na fermentação própria das novas elaborações do pensar ou se limitava a acatar o novo modo de pensar, nele imiscuindo as antigas formas, sem portanto assumi-lo enquanto livre dos substratos particulares e de modo a discernir o seu conteúdo particular, deixando a este, em seu automovimento próprio, o desenvolvimento pleno da consciência da forma de tal  automovimento.
O importante é que, às vésperas de seus 200 anos, a Doutrina do Ser permanece plenamente atual e, às expensas das modificações internas do projeto hegeliano, se mantém ainda em um plano além daquelas tentativas que se deram ao desafio de sua suposta superação ou de um melhor tratamento daquilo que nela se designa as essencialidades espirituais.

Em vista disso, embora o tratamento fenomenológico das determinações de pensamento na primeira edição seja para o projeto hegeliano posterior o seu maior defeito, se comparado por exemplo com a tentativa de exposição plástica ou pura do Especulativo na Doutrina do Ser de 1832, o mesmo não deixa por isso de ser especulativo e, inclusive, ainda se mantém como o horizonte do espírito em geral nos quadros de sua consciência presente. Este cujo desenrolar só recentemente passou do subjetivo ao intersubjetivo, no qual ainda se opera a passagem do analítico ao pós-analítico ou do sintático e do semântico ao pragmático e deste ao transcendental et coetera, assim como do fenomenológico ao  pós-fenomenológico e do metafísico (em sentido tradicional) ao pós-metafísico. O que permite à Lógica especulativa não só entrar na disputa pelas consciências do tempo presente, mas também apresentar-se como a melhor alternativa no que diz respeito à elevação e à consecução da autoconsciência do espírito que no mesmo se realiza enquanto tal. 
       
Por diversos motivos considerada a principal e a mais dificil obra de Hegel, a Ciência da Lógica tem sido estudada sob as mais diversas formas, as quais de nenhum modo lograram até aqui esgotar o problema do objeto e do escopo da mesma. Sendo uma obra que concebe a unidade da Lógica e da Metafísica, ao mesmo tempo em que a unidade da ciência de seu tempo, a Ciência da Lógica tematiza desde os elementos intrínsecos os mais básicos constitutivos de disciplinas como a Lógica formal e a Matemática até as questões mais estringentes relativas às provas do ser-aí de Deus e à Liberdade. Mais que isso, concebida como pertencendo ao estudo próprio da juventude dos tempos de sua elaboração, a Lógica hegeliana se impõe ainda nos dias de hoje como uma das obras mais sedutoras de uma juventude cuja maior audácia continua sendo compreender o seu tempo em conceitos.

A todas as estudiosas e a todos os estudiosos cuja audácia encontra aqui alguma ressonância ou na qual ressoa algo da negatividade ínsita à Dialética ou ao Especulativo, estejam convidados a mais esta celebração do espírito da Filosofia e ao desafio que a mesma nos propõe: Compreender filosófica ou especulativamente tal espírito ou, em certo sentido, a nós mesmos enquanto nos voltamos ao que nos é o mais íntimo.